terça-feira, 5 de outubro de 2010

Raça naturalizada é opção para o Pantanal

Há 270 anos a pecuária faz parte das atividades econômicas pantaneiras. O boi chegou à região em 1542 com os espanhóis, nos tempos em que o Tratado de Tordesilhas dividia as terras brasileiras entre Portugal e Espanha. Os índios eram bárbaros desconhecidos que, vez ou outra, saqueavam os colonizadores e dessa forma “pulverizaram” a planície pantaneira com animais domésticos, inexistentes nessas terras.

O boi foi criado solto, com cruzamentos aleatórios e com as pastagens naturais abundantes procriou e durante muitos anos passou pelo processo de seleção natural, adaptando-se ao clima e à geografia, convivendo com animais silvestres e resistindo às intempéries do local, com cheias e secas.

O bovino Pantaneiro, conhecido como Tucura, é uma raça naturalizada, que descende desses animais e foi criado no Pantanal até a década de 1950. Teve um papel importante como produto no ciclo do charque da região, no fornecimento de carne, inclusive durante os períodos de guerra e derivados (osso, couro) que eram exportados para a Europa. A introdução de raças exóticas mais produtivas e resultantes de melhoramento genético fez com que o Tucura se distanciasse das necessidades dos produtores e do mercado, apesar das suas qualidades naturais.

Hoje essa raça pode ser considerada o bovino de origem européia mais adaptado à região do Pantanal. Sua carne é popularmente conhecida pelo sabor e maciez e ganha o interesse de pesquisadores como a médica veterinária Raquel Soares Juliano, que pesquisa a conservação e uso dessa raça, associada ao desenvolvimento sustentável da região desde 2007.

Segundo pesquisas, a raça corre risco de extinção. Em todo o Brasil existem cerca de 500 cabeças, em dois criatórios conhecidos. Uma das razões que dificulta a comercialização do Tucura é o fato desse animal não atender às características do mercado frigorífico convencional, pois apresenta menor peso ao abate. Entretanto as pesquisas em andamento investigam características favoráveis na qualidade de carne e carcaça.

Para Raquel, há uma boa oportunidade de utilização da raça em cruzamentos com o Nelore e se as pesquisas confirmarem um resultado positivo, será uma opção para conter o processo de extinção.

O pantaneiro Roberto dos Santos Rondon, assistente de pesquisadores da Embrapa Pantanal há 25 anos, confirma as vantagens de criar tucura “Em época de enchente ele é bom pro manejo, convive bem com a água e é bem resistente às pragas, apesar de ser um ‘bicho bravo’”.

Outra proposta da Embrapa para a manutenção da raça seria aliar apreciadores da gastronomia ao turismo: trazer o mercado consumidor para a região e promover a sustentabilidade existente na cadeia produtiva no Pantanal. Assim, seria inverso o processo de exportar gado para ganhar o gosto europeu e chinês, principais consumidores da carne brasileira, pois eles viriam como turistas para conhecer a produção in loco, como é feito nas regiões vinícolas de todo o mundo. Para tentar desenvolver este nicho mercadológico, a fazenda modelo Nhumirim, da Embrapa Pantanal, realiza pesquisas com raças adaptadas e, até o fim do ano, terá os primeiros resultados de qualidade de carne e carcaça de bovinos Tucura.

“A dificuldade é adequar a cadeia produtiva da carne a um mercado consumidor relacionado ao turismo, isso ainda não existe”, lamenta Raquel. A fazenda também está em processo de reestruturação para conseguir o selo orgânico, que reforça sua opção pela produção sustentável.

Quanto à cruza, o campograndense e agropecuarista Túlio Alves Filho, dono da fazenda São Roque, situada no pantanal da Nhecolândia, recomenda ser a melhor opção de cria “porque o tucura é um boi de pouco peso, então levei touros nelore para cruzar e obtive carne muito saborosa e mestiços de engorda mais rápida”. Há 40 anos comprou a São Roque da família de Cândido Rondon e hoje cria em torno de quatro mil cabeças de gado mestiço, considerando o Pantanal “o lugar mais barato se criar gado de forma extensiva, pois a terra é barata e o pasto nativo é bom”

Para garantir a sustentabilidade do sistema produtivo é necessário esclarecer que a pecuária deve ter como alicerce o tripé econômico, social e ambiental, permitindo o equilíbrio entre a natureza, a comunidade e a atividade produtiva.

* Este texto foi publicado inicialmente em http://www.cpap.embrapa.br/destaques/2010materia58.html

** Por

Laryssa Caetano
Fernanda Kintschner

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Muito estranho essa afirmação de que os índios foram responsáveis pelo 'alastramento' das espécies no pantanal, ainda mais por saquearem os colonizadores?? ... Quais são as referências? Talvez bandeirantes não chegaram tão longe, mas e as missões?

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